
Entre tantas cidades importantes no mundo, por que ambientar um thriller em Jerusalém? Para Davi Vieira, a resposta está numa característica que nenhum outro lugar reúne da mesma forma: em Jerusalém, as camadas da história não ficam enterradas umas sob as outras, mas convivem lado a lado, no mesmo espaço. Em poucos quarteirões, o visitante atravessa séculos, impérios e religiões.
Uma dessas camadas passa despercebida pela maioria das pessoas, inclusive por muitos turistas que caminham diante dela: a cidade russa dentro de Jerusalém.
Peregrinos dos czares
No século XIX, a Rússia imperial olhava para a Terra Santa com um interesse que misturava fé e política. Todos os anos, milhares de camponeses russos faziam a longa viagem até Jerusalém, muitas vezes a pé por boa parte do caminho, para rezar nos lugares sagrados do cristianismo. Para recebê-los, o governo dos czares construiu fora das muralhas da Cidade Velha um conjunto de edifícios que ficou conhecido como Complexo Russo.
Ali surgiram hospedarias, um hospital, residências para religiosos e, no centro de tudo, a Catedral da Santíssima Trindade, com suas cúpulas verdes, uma presença inconfundivelmente russa na paisagem de pedra clara de Jerusalém.

O Complexo não está sozinho. No Monte das Oliveiras, a Igreja de Santa Maria Madalena exibe cúpulas douradas em forma de cebola, como se tivesse sido transplantada de Moscou. Perto do Santo Sepulcro, outros edifícios russos guardam suas próprias histórias. Juntos, eles formam uma espécie de mapa paralelo da cidade, desenhado por um império que já não existe.

Uma história a cada prédio
Para o autor, o que torna essa Jerusalém russa tão fascinante é que cada um desses prédios carrega uma trajetória peculiar. O próprio Complexo Russo mudou de mãos e de função várias vezes ao longo do século XX, acompanhando as reviravoltas da região: depois da Revolução de 1917, os peregrinos deixaram de chegar, e os edifícios passaram a servir a outros senhores e a outros propósitos.
Mas talvez nenhum episódio seja tão curioso quanto o da venda do Complexo.
Pago em laranjas
Em 1964, a União Soviética, um Estado oficialmente ateu e sem nenhum interesse em manter hospedarias para peregrinos cristãos, decidiu vender boa parte daquelas terras ao Estado de Israel. O negócio em si já seria uma curiosidade da Guerra Fria. O detalhe que o tornou célebre foi a forma de pagamento: os soviéticos aceitaram receber parte do valor não em dinheiro, mas em laranjas.
O episódio ficou conhecido como o “Acordo das Laranjas”. As frutas cultivadas em Israel atravessaram o mar rumo à União Soviética, e um pedaço da herança dos czares mudou de dono em troca de cítricos. É o tipo de fato que parece inventado e que, justamente por ser real, interessa tanto a um escritor de suspense.
Um cenário pouco explorado
Na avaliação de Davi Vieira, Jerusalém ainda é pouco aproveitada como cenário na literatura de thriller, apesar de reunir tudo o que o gênero procura: segredos, disputas de poder, símbolos religiosos e uma história que nunca se encerra de vez. E se a Jerusalém mais conhecida já é pouco explorada, a Jerusalém russa é praticamente território virgem na ficção.
Foi nesse terreno, entre cúpulas ortodoxas, corredores antigos e acordos improváveis, que ele decidiu ambientar O Libelo de Sangue.
_______________________________________
O Libelo de Sangue (Editora Giostri) será lançado na quarta-feira, 14 de outubro, às 19h, na Livraria Leitura de Sorocaba. Quem quiser conhecer a história antes do lançamento já pode ler as primeiras páginas.

Deixe um comentário