Médico radiologista, com atuação em radiologia geral e musculoesquelética.

[
[
[

]
]
]

CONCEITOS BÁSICOS

Sangue

  • Hemácias, leucócitos, plaquetas, plasma
  • Antígenos (geneticamente determinados)
  • Grupos sanguíneos
  • Tipos sanguíneos
  • Aloimunização: pós-exposição – transfusão não-compatível, gestação (outros grupos); “natural” – desde o nascimento (ABO)

Grupo ABO

  • AB / A / B / O / Bombaim (s/ substância H) – aloimunização natural (isoaglutininas)
  • Sangue AB: “receptor universal”
  • Sangue A: anti-B
  • Sangue B: anti-A
  • Sangue O: anti-A + anti-B (“doador universal”)
  • Sangue O Bombaim: anti-A + anti-B + anti-H

Grupo Rh

  • Antígeno D: D+ Rh+, D- Rh-.
  • Poderosa aloimunização pós-exposição (transfusão incompatível – reação hemolítica, gestação – DHPN)

Outros grupos

  • Lewis, Kell, Duffy, Kidd, MNSsU, I/i, P: mais de 100 grupos diferentes, com mais de 500 antígenos
  • Menos imunogênicos que ABO e Rh: RHT e DHPN incomuns
  • Não ocorre aloimunização natural: politransfundidos e multíparas

INDICAÇÕES E DOSES

Concentrado de hemácias

  • Hemorragia aguda: perda > 30% (> 1,5L) ou perda > 15% (> 750mL) + estado crítico, anemia e/ou doença cardio/pneumo/cerebrovasculares prévias; estimativa visual ou avaliação clínica do status hemodinâmico; lembrar – Ht não se altera nas primeiras 72h.
  • Pré-operatório: distúrbio da hemostasia ou perda prevista >= 250mL/h ou >= 1L, transfundir se Hb < 8mg/dL, Ht < 24%; + presença de comorbidades (cardio/pneumo/cérebro), transfundir se Hb < 10mg/dL, Ht < 30%; demais casos se Hb < 7mg/dL, Ht < 21%.
  • Anemia: descompensação clínica por causa da anemia (dispneia, angina, alteração do sensório); paciente hígido Hb < 7, Ht < 21, comorbidades Hb <9, Ht < 27.
  • 1 bolsa aumenta Hb em 1g/dL e Ht em 3%.

Concentrado de plaquetas

  • Transfusão terapeutica: sangramento + plaquetas < 50000, disfunção plaquetária (ex. AAS, TS > 12 min), pós-CEC + plaquetas < 150000.
  • Transfusão profilática: ausência de sangramento + procedimento invasivo + plaquetas < 50000, + cirurgia neuro/oftal + plaquetas < 100000, + pós-QT + plaq < 10000 sem febre, + pós-QT + plaq < 20000 com febre.
  • Dose: 1U “randômica” p/ cada 10 kg de peso; 1U de CPDU (~6U randômicas)
  • Colher sangue após 1h: aumento plaquetometria 30000/mm3 (aumento 5-10 mil após 24h)
  • Contraindicações: PTT e HIT (trombose induzida por heparina)

Plasma fresco congelado

  • Contém todos os fatores da coagulação
  • Indicações: intoxicação cumarínica, insuficiência hepática, CIVD, coagulopatias hereditárias (exceto hemofilia A), PTT. Na presença de sangramento ou procedimento invasivo (exceto ascite) + INR/rel TTPa > 1,5 (exceto na PTT, onde serve como tratamento básico)
  • Dose: 15-20ml/kg de peso

Crioprecipitado

  • Fibrinogênio, fator VIII e fator de von Willebrand (também fator XIII)
  • Principal indicação: CIVD
  • Dose: 1 bolsa para cada 5kg de peso (aumento fibrinogênio em 70-100mg/dL)

TESTAGEM PRÉ-TRANSFUSIONAL

Tipagem sanguínea

  • Forward type: mistura o sangue do paciente com anti-soros
  • Reverse type: mistura o soro do paciente com sangues (anti-D não é testado de rotina)
  • Identificação dos grupos ABO e Rh

Screening de aloanticorpos

  • Hemácias O- com outros grupos sanguíneos conhecidos: soro do paciente

Prova cruzada

  • Amostra da bolsa + sangue do paciente: não aglutina = compatibilidade ABO, Rh e ausência de aloanticorpos contra outros grupos.

Emergência

  • Rh- pode receber Rh+: se mulher em idade fértil, ministrar anti-D.

HEMOCOMPONENTES

Doação

  • Centrifugação lenta: separa o sangue em plasma rico em plaquetas e CHA (concentrado de hemácias do adulto).
  • Centrifugação rápida: separa o plasma rico em plaquetas em concentrado de plaquetas “randômicas” e plasma “fresco” (congelar em 8h – PFC).
  • Reaquecimento lento + centrifugação: do PFC gera CRIO (Fibrinogênio, Fator VIII e fvWb).
  • Plaquetaférese: coleta específica (sangue volta para o doador) gera CPDU
  • “Sangue total”: em geral, somente nas Forças Armadas.
  • Prazos de validade: CHA – geladeira a 4º.C (35-42 dias dependendo do conservante); plaquetas – temperatura ambiente (agitação continua) 5 dias; PFC e crio -18º.C (dura 1 ano, é o que menos falta).
  • Efeitos clínicos: CHA – aumenta Hb em 1g/dL e Ht em 3%; plaquetas – aumenta 5-10mil plaquetas/dose adequada; PFC – aumenta 2% (todos fatores de coagulação); crio – aumenta Fibrinogênio, Fator VIII e fvWb (pouco volume).
  • Rotina de rastreio do sangue doado: sífilis, Chagas, HIV, HBV e HCV, HTLV I e II; CMV – receptor Tx anti-CMV IgG -, RN de mãe anti-CMV IgG negativo ou desconhecido, transfusão intrauterina; malária – áreas endêmicas.

PROCESSAMENTO DOS HEMOCOMPONENTES

Concentrados de hemácias

  • Leucodepleção: filtro de leucócitos na coleta da doação; diminui incidência de reação febril não-hemolítica, diminui efeito imunomodulador, diminui aloimunização HLA, diminui risco de CMV.
  • Lavagem: remover o plasma da bolsa (~20%); diminui reação alérgica transfusional (deficiência de IgA).
  • Irradiação: inativar leucócitos remanescentes após filtração (“matar” células nucleadas); diminui incidência de doença enxerto x hospedeiro transfusional (receptor imunossuprimido, parentes de 1º grau).

REAÇÕES ADVERSAS À HEMOTRANSFUSÃO

Tipos

  • Imunes: febril não hemolítica, TRALI, febril hemolítica aguda, febril hemolítica tardia, alérgica, GVHD transfusional, púrpura pós-transfusional.
  • Não imunes: TACO, hipotermia, distúrbio HE/AB, coagulopatia dilucional, hemocromatose secundária, episódios hipotensivos, sepse.
  • Mais comum: RFNH
  • Mais letal: TRALI

Reação febril não-hemolítica

  • Anticorpos anti-HLA no soro do receptor x leucócitos do doador
  • Calafrios e aumento TC > 1º.C sem outra causas aparente
  • Risco aumentado em: politransfundidos e multíparas
  • Prevenção: leucodepleção
  • Conduta: parar transfusão + antitérmico
  • Bom prognóstico

TRALI

  • Anticorpos anti-HLA no soro do doador x leucócitos do receptor
  • SDRA em até 6h após transfusão
  • Fatores de risco: sangue de multípara, tabagismo/etilismo, Tx hepático, receptor doente crítico.
  • Prevenção: sangue de homem ou nulípara
  • Conduta: suporte

Reação hemolítica aguda

  • Isoaglutininas no soro do receptor
  • Incompatibilidade ABO, erro operacional
  • Dor no acesso, febre + calafrios, dor torácica, abdominal e lombar, taquidispneia, hipotensão, urina escura minutos após o início!
  • Laboratório: hemólise + CIVD + IRA
  • Conduta: parar, hiperidratar (+furosemida/manitol)
  • Confirmar: Coombs direto e prova cruzada

Reação hemolítica tardia

  • Isoaglutininas no soro do receptor em baixos títulos (grupos não-ABO)
  • Hemólise 1-2 semanas após (reativação memória imunológica)
  • Diminuição do Ht aos níveis pré-transfusionais
  • Laboratório: hemólise, Coombs+ e prova cruzada
  • Conduta: nova transfusão (agora compatível)

Reação alérgica

  • Alergia a proteínas do plasma do doador
  • Fator de risco: deficiência IgA
  • Branda: urticaria; grave: anafilaxia
  • Conduta: branda – para, anti-histamínico, volta; grave – para, adrenalina, corticoide, anti-histamínico, não volta.
  • Prevenção: branda – pré-medicar com anti-histamínico; grave – CHA lavado/PFC deficiente IgA.

GHVD transfusional

  • Leucócitos do doador persistem e “atacam” tecidos do receptor
  • Risco: imunodeprimidos profundos, parentes de 1º. Grau
  • Febre, rash, diarreia, hepatopatia, aplasia MO
  • 8-10 dias após transfusão
  • Péssimo prognostico: baixa resposta ao tratamento
  • Óbito em 3-4 semanas
  • Prevenção: CHA irradiados se alto risco

Púrpura pós-transfusional

  • Autoanticorpos anti-plaquetas induzidos pela transfusão (“PTI pós-transfusional”)
  • Mulheres
  • Plaquetopenia progressiva após 7-10 dias
  • Conduta: imunoglobulina EV +- plasmaférese

TACO

  • Função cardíaca ruim, infusão rápida demais ou volume excessivo (EAP “cardiogênico”).
  • Difere de TRALI: presença de HAS
  • Conduta: suspensão temporária, diurético, VNI
  • Prevenção: infusão lenta

Hipotermia

  • Infusão rápida demais ou volume excessivo sem aquecimento prévio (CHA 4º.C, PFR/crio -18º.C)
  • Arritmias + diátese hemorrágica
  • Conduta: reaquecer o paciente
  • Prevenção: sistemas de aquecimento

DHEL/AB

  • HiperK (bolsa “velha”), HipoCa e alcalose metabólica (citrato)
  • Neonatos e DRC: somente CHA “novo”
  • HipoCa e alcalose metabólica: tto específico só se grave

Coagulopatia dilucional

  • CHA tem pouco plasma e não tem plaquetas
  • Não se indica transfusão “profilática” de plaquetas e plasma!
  • Conduta: transfusão de plaquetas se sangramento ativo + plaquetas < 50000 e transfusão de plasma se sangramento ativo + TAP/PTT alargados.

Hemotransfusão “maciça”

  • Troca da volemia por CHA, > 8-10 bolsas/24h
  • TACO
  • Hipotermia
  • Diátese hemorrágica
  • HiperK, hipoCa e alcalose metabólica

Hemocromatose secundária

  • Paciente recebe > 100 CHA ao longo da vida (> 20g de Fe)
  • Disfunção hepática, cardíaca, endócrina.
  • Prevenção: transfundir só o necessário, usar alternativas (ex. EPO recombinante).
  • Tratamento: quelantes de ferro – desferoxamina EV / deferasirox VO

Episódios hipotensivos

  • Bolsa “velha” em usuário de IECA
  • Aumento de bradicinina na bolsa
  • Diminuição da PA durante a transfusão
  • Tratamento: Trendenlemburg, hidratação venosa

Sepse

  • Contaminação da bolsa por bactérias
  • Maior risco em plaquetas (Yersinia, S. aureus)
  • Choque séptico fulminante em horas (diferente RFNH)
  • Ausência de hemólise (diferente RFH)
  • Prevenção: sistemas automatizados
  • Tratamento: interromper, ATB + suporte (cobrir BGN e CGP)

+++++++++++++++++++++++++++++

Definições

  • Hemocomponentes
  • Hemoderivados: manipulação de hemocomponente (albumina, fator VII, fibrinogênio)

Anemia

  • 95% com anemia no 3º dia de UTI
  • Multifatorial: diminuição de eritropoietina, flebotomia (41ml/dia), sangramentos, IRA, insuficiência hepática e sepse
  • Decisão transfusional: grau de anemia, tempo de queda da Hb, performance cardíaca, comorbidades, previsão de perda sanguínea e ate conceitos religiosos
  • Heterogeneidade dos pacientes: gatilho transfusional – Hb 7.0 – eficaz em pacientes críticos normovolêmicos; tendência a menor mortalidade em 30 dias; estratégia restritiva (Hb 7.0-9.0) pode ser aplicada em pacientes com doença coronariana, porém reavaliar em pacientes com IAM e angina instável (estratégia liberal).
  • 3ª linha: antes, volume e vaso/inotrópicos.
  • Gatilho: 7g/dL e objetivo 7-9g/dL em UTI geral; 8-10g/dL e objetivo 10g/dL em cardiopatia grave e choque séptico (< 6 horas); transfundir 1 unidade/vez; leucorredução? (enxerto x hospedeiro)
  • Imunomodulação (TRIM)
  • Recomendações estabelecidas: de acordo com perda volêmica – se > 30% e sinais de descompensação hemodinâmica; de acordo com níveis de Hb – Hb > 9 contraindica, Hb < 7 geralmente indica, Hb 7-9 SCA/SvO2 < 75%/acidose lática central e/ou periférica.
  • Recomendações entre 7-10g/dL: sem sangramento agudo – gatilho 7 objetivo 7-9; choque séptico > 6 horas – gatilho 7 objetivo 7-9; choque séptico < 6 horas – gatilho 8-10 objetivo 10; cardiopatia crônica – gatilho 7 objetivo 7-9; cardiopatia aguda – gatilha 8-10 objetivo 10.
  • Pacientes urêmicos: sangramento por plaquetopenia – Hb 10g/dL.
  • Transfundir ou não: analise individual do risco; sinais de oxigenação global ou regional insuficientes; necessidade de mais estudos controlados randômicos; implementação de guias transfusionais.

Plaquetas

  • Plaquetopenia: frequente (13-58%) e multifatorial.
  • Causas mais frequente: sepse e trauma / drogas, cateteres, transfusão maciça, CIVD, choque e SARA.
  • Causas menos frequente: PTT, SHU, PTI, HELLP, HIT, oncológicas.
  • Valor prognóstico: grau de declínio (>50%) – óbito
  • Transfusão: não existe protocolo especifico (terapêutica ou profilática)
  • Terapêutica: plaquetas > 100000/mm3, sangramento e plaquetopatia; plaquetas < 50000/mm3 e sangramento; < 100000/mm3 e sangramento SNC ou oftálmico ou cirurgia cardíaca.
  • Profilática: procedimentos inadiáveis – cirurgia cardíaca, SNC, oftalmo < 100000/mm3; cirurgia de grande porte, biópsia hepática, broncoscopia, cateter central ou SNC, cirrótico < 50000/mm3; EDA c/ biópsia < 40000/mm3; pacientes oncohematológico estável <10000/mm3; pacientes oncohematológico instável (LMA-M3) < 20000/mm3.
  • Transfusão de plasma fresco: CIVD, deficiência de vitamina K, sangramento, doença hepática, overdose de anticoagulante, coleta inadequada da amostra.
  • Transfusão de crioprecipitado: repor fibrinogênio em pacientes com hemorragias e déficits isolados congênitos ou adquiridos de fibrinogênio, quando não se dispuser do concentrado de fibrinogênio industrial; repor fibrinogênio em pacientes com coagulação intravascular disseminada (CIVD) e hipofibrinogenemias.

Reação transfusional

  • Aguda: imune – RFNH (0-1%), reação hemolítica, reação alérgica, reação anafilática, TRALI; não imune – contaminação bacteriana, sobrecarga volêmica, hemólise não imune, embolia aérea, hipotermia, hipotensão/ECA?, hipocalcemia (citrato).
  • Crônica: imune – aloimunização HLA, doença enxerto-hospedeiro, púrpura pós-transfusional, imunomodulação; não imune – hemossiderose, doenças infecciosas.
  • TRALI: EAP não-cardiogênico e hipoxemia até 6h da transfusão na ausência de outras causas de ALI e TACO (sobrecarga circulatória); definição – insuficiência respiratória aguda (ALI) – hipoxemia SatO2 < 90% aa ou P/F < 300mmHg; Rx tórax com infiltrado bilateral tipo alveolar; ausência de sinais de sobrecarga cardíaca (PAPO >= 18mmHg; estase jugular, 3ª bulha, dispneia ortostática); diagnóstico clínico – não depende de resultados laboratoriais e/ou mecanismo fisiopatológico; 81% recuperação rápida e completa.
  • TACO: disfunção cardíaca aguda associada à transfusão de hemocomponentes; diagnostico – sinais e sintomas de congestão cardíaca, confirmação com técnicas invasivas (PAPO); PAPO: Rx tórax, ECO com FE reduzida, BNP aumentado (hormônio secretado pelos ventrículos em resposta à expansão volumétrica).
  • Eritropoietina: diminuição de mortalidade em trauma, maior risco de trombose; estudos; se administrado, profilaxia de TVP.

Deixe um comentário