Senescência
- O envelhecimento/senescência é um processo dinâmico e progressivo, caracterizado por alterações morfológicas, estruturais, funcionais e bioquímicas, que progressivamente alteram o organismo, tornando-o mais suscetível às agressões e morte (do ponto de vista biofisiológico).
- Há, pois, uma redução da capacidade homeostática às situações de sobrecarga funcional.
- Do ponto de vista socio-econômico: fase em que o indivíduo deixa de ser produtivo e, muitas vezes, se torna dependente.
- As funções orgânicas declinam com o passar da idade, após atingirem seu pico em torno dos 30 anos de idade (a cada ano, reduz-se 1% da função) e essas alterações são cumulativas e paulatinas e o idoso é mais propenso a perder os controles de homeostasia.
Senilidade
- A senilidade é o envelhecimento anormal com alterações morfológicas, estruturais, funcionais e bioquímicas anormais.
- Pode ser decorrente da vulnerabilidade provocada pela senescência.
- O limite entre senescência e senilidade é tênue.
Teorias do envelhecimento
- Cada tipo celular possui sua velocidade de envelhecimento, de acordo com seu grau de diferenciação. Com o passar da idade, há progressiva lentidão na síntese de DNA e menor resposta a fatores de crescimento, bem como alterações neste e no seu processo de síntese (mutações e encurtamento do telômero, p. ex.).
- Atualmente há duas teorias do envelhecimento: a do relógio biológico e a da deterioração da síntese proteica. Ambas sujeitas a mecanismos intrínsecos (hereditariedade, estresse oxidativo, alterações imunológicas, etc) e extrínsecos (alimentação, hábitos, clima, etc).
Com o envelhecimento, mais colágeno é formado e maior resistência à colagenase, aumenta a resistência tecidual e dificulta a difusão dos nutrientes dos capilares às células e dos metabólitos em sentido contrário, contribuindo para deterioração da função celular. Por outro lado, no sistema elástico há fragmentação, irregularidades e depósito de cálcio, causando redução da elasticidade dos tecidos.
O idoso tem redução no % de líquido corporal, sendo, portanto, um desidratado crônico.
Há aumento da densidade de gordura em relação à massa magra com distribuição centrípeta (tronco). O peso, portanto, tende a reduzir após os 60 anos se não houver deposição adicional de gordura.
Há perda de massa óssea. A estatura reduz-se 1 cm/10 anos após os 40 anos de idade.
Há aumento das extremidades e do diâmetro AP do tórax, abdome e ilíaco.
No coração, há aumento do colágeno no endocárdio e pericárdio. No miocárdio há degeneração de fibras musculares com atrofia e/ou hipertrofia das remanescentes, aumento do sistema elástico e depósito de gordura e amilóide. Nas valvas pode haver espessamento e calcificação, principalmente nas mitral e aórtica. Como consequência das alterações, tem-se o sistema de condução com redução do número de células.
Isso é concomitante a alterações bioquímicas, como menor mobilização do cálcio, maior rigidez da parede arterial, redução da luz dos vasos.
Isso culmina com redução da diástole em repouso e diminuição da ejeção (função sistólica) em condições de sobrecarga.
Nos pulmões há redução da capacidade de expansão torácica pelas alterações morfológicas musculares. Isso acompanha menor complacência pelas alterações nos sistemas colágeno e elástico: paredes menos resistentes podem levar ao colabamento expiratório. Há dilatação de bronquíolos e sacos alveolares (impropriamente chamado de enfisema senil).
Ocorre também alterações de quimiorreceptores e do controle do SNC que levam à diminuição de resposta às variações de PO2 e PCO2. no sangue.
Os rins perdem capacidade de fluxo a 10% a cada década a partir dos 50 anos, em que a TFG reduz-se de 35 a 50% entre 20 e 90 anos. Reduz-se também a função tubular, o que altera a capacidade de concentração e diluição urinárias.
Essas alterações só terão relevância clínica em condições de sobrecarga, como excesso de sódio e água, não se observando excreção rápida compensadora, o que levaria a hipervolemia e alteração função cardíaca.
Muitas vezes alterações renais levam à necessidade de ajuste de dose de medicamentos. Por outro lado pode haver IRA diante de contrastes radiológicos e aminoglicosídeos.
Utiliza-se a fórmula de Cokcroft e Gault para Clearance de creatinina: Depuração de Cr (ml/min) = (140-idade) x peso(Kg) / Cr x 72. Se x 0,85.
O aumento do ADH com o envelhecimento pode levar a hiponatremia. O SRAA reduz-se, podendo acarretar hiponatremia, hipercalemia e hipotensão ortostática.
No fígado, o fluxo sanguíneo hepático está reduzido e consequentemente a taxa de metabolismo de substâncias como algumas drogas (lidocaína e propranolol). Apesar da menor massa celular hepática funcionante, não há alterações da função em condições basais. Não há alteração de transaminases. Contudo, condições extra- hepáticas podem levar a insuficiência hepática como na ICC.
O SNC cursa com perda celular maior no córtex (após 25 anos) acompanhada da diminuição de neurotransmissores. Acarreta, pois, alterações de receptores externos, como barorreceptores e quimiorreceptores. Na pele, diminuição dos receptores e menor percepção da temperatura e da sensibilidade táctil. De modo geral, tem-se diminuição da velocidade de condução aferente bem como eferente (estruturas efetoras músculos e glândulas).
As funções cognitivas que se modificam com a idade são a memória, as de execução, as de linguagem e habilidades viso-espaciais. O comprometimento cognitivo leve (CCL) envolve queixa de alteração cognitiva com prejuízo objetivo, função geral normal e atividades de vida normais com ausência de demência.
O sistema endócrino possui relação com sistema nervoso e endócrino, coordenando situações de adaptação, estresse, estimulação do eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal (libera catecolaminas e glicocorticóides). Estimula o crescimento tecidual através da somatomedina produzida pelo fígado, mas com envelhecimento há redução da somatomedina.
A maior evidência do envelhecimento endócrino é o climatério (redução de estógeno).
Tem-se um estado de “imunodeficiência” com o envelhecimento.
Na anamnese, atentar para medicações em uso, avaliação funcional (AVDs) e cognitiva e a escala de depressão.
Os AVDs avaliam:
- Atividades básicas de vida diária (ABVDS): banhar-se; vestir-se; usar o sanitário; transferir-se; ter continência; alimentar-se.
- Atividades instrumentais de vida diária (AIVDS): usar o telefone; transporte; compras; preparar alimentos; tarefas domésticas; medicação; dinheiro.
Lembrar que o paciente idoso é um paciente com diversas comorbidades. Para presecrever fámacos, ter certeza de que o sintoma requer tratamento, (pode ser efeito colateral de outro medicamento), iniciar o tratamento com doses baixas e evitar iniciar duas drogas. Racionalizar a prescrição e determinar quais as metas terapêuticas com controle dos medicamentos crônicos.
As grandes síndromes geriátricas de combate: instabilidade postural, imobilidade, incontinência urinária e fecal, incontinência emocional (demência e alterações de humor) e iatrogenia (esta na maioria das vezes é por não reconhecer alterações normais impostas pelo envelhecimento).

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