Médico radiologista, com atuação em radiologia geral e musculoesquelética.

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SÍNDROME STORCH

SÍFILIS CONGÊNITA

Introdução

  • Definição: resultado da disseminação hematogênica do Treponema pallidum para o seu concepto, por via transplacentária.
  • Treponema pallidum: descoberto em 1905.
  • Alta mortalidade até o século XIX (cerca de 80%).
  • Com a descoberta da penicilina, chegou-se a prever a erradicação da sífilis.
  • No Brasil: doença de notificação compulsória desde dezembro de 1986.
  • Elementos fundamentais: ações de diagnóstico e prevenção precisam ser reforçadas.

Transmissão Vertical

  • Disseminação hematogênica (via transplacentária) do Treponema pallidum.
  • A gestante infecta o concepto em qualquer fase gestacional e em qualquer fase da doença.
  • Taxas de transmissão:
    • Fases 1ª e 2ª da doença materna: 70 a 100%
    • Fases tardias (latente tardia e terciária): 30%
  • Aleitamento materno: não é contraindicado, apenas se houver lesões cutâneas secundárias próximas ao mamilo.
  • Parto: possibilidade de transmissão direta se houver lesões no canal de parto.
  • Em gestantes não-tratadas: 40% de aborto espontâneo ou natimorto
    • natimorto: > 22 semanas de gestação e peso >= 500 g
    • aborto: < 22 semanas de gestação e peso < 500 g
  • Dificuldade no diagnóstico clínico: mais de 50% das crianças infectadas são assintomáticas ao nascimento

Manifestações Clínicas do RN

  • Sífilis Congênita Precoce (< 2 anos)
    • Prematuridade
    • RCIU/PIG
    • Lesões viscerais: hepatomegalia/hepatite
    • Lesões cutaneomucosas: pênfigo palmoplantar, condiloma plano (perianal) e rinite serossanguinolenta
    • Lesões ósseas: periostite e/ou osteocondrite – pseudoparalisia de Parrot
    • Pneumonia alba: insuficiência respiratória
    • Alterações laboratoriais: anemia hemolítica com Coombs negativo, trombocitopenia e leucocitose ou leucopenia – bicitopenia ou pancitopenia
  • Sífilis Congênita Tardia (> 2 anos)
    • Sequelas da periostite: fronte olímpica, tíbia em “lâmina de sabre”
    • Anormalidades dentárias: dentes de Hutchinson (incisivos medianos superiores deformados)
    • Face: nariz “em sela” (rinite promove destruição do septo), rágades periorais
    • Articulações de Clutton
    • Ceratite intersticial
    • Surdez neurológica

Diagnóstico

  • Pesquisa direta do T. pallidum
    • Não é possível através de culturas
    • Pesquisa direta por avaliação microscópica:
      • O material deve ser colhido de lesões cutaneomucosas, biópsias, placenta ou cordão umbilical.
      • Treponemas móveis em campo escuro (difícil visualização).
      • Imunofluorescência direta para análise microscópica de tecidos (com sensibilidade e especificidade superiores à pesquisa em campo escuro).
  • Testes Sorológicos
    • Principal forma de triagem e de diagnóstico
    • Testes não-treponêmicos
      • VDRL (Venereal Diseases Research Laboratory) e  RPR (Rapid Plasma Reagin)
      • Elevada sensibilidade, com possibilidade de titulação (permite o acompanhamento do tratamento).
      • Resultado: considerado + a partir de 1:1
      • Desvantagens: resultados falso-positivos (reações cruzadas com outras infecções treponêmicas ou outras doenças, como LES e Hanseníase) e falso-negativos (efeito prozona)
      • Negativação com o tratamento
        • Sífilis primária: em 1 ano
      • Sífilis secundária: em 2 anos
      • Na doença congênita: em alguns meses até 2 anos
    • Limitação dos testes sorológicos no lactente
      • Passagem transplacentária de Ac maternos (IgG)
      • Títulos na criança > títulos maternos: suspeita de sífilis congênita
      • Quando os anticorpos são maternos: VDRL começa a diminuir após os 3 meses e negativo após os 6 meses.
  • Estudo do LCR
    • frequência elevada de neurossífilis antes do advento da penicilina
    • celularidade, proteínas e VDRL (diagnóstico de certeza de neurossífilis)
    • RN: pleocitose > 25 leucócitos/mm³ e proteínas > 150 mg/dL
    • Crianças com idade > 28 dias: pleocitose > 5 leucócitos/mm³ e proteínas > 40 mg/dL
  • Estudos de imagem
    • Rx de ossos longos: periostite e osteocondrite
    • pseudo-paralisia de Parrot: muita dor; criança chora nos braços dos pais e melhora em repouso

Manejo Clínico da Sífilis Congênita (MS)

  • Medidas de Controle
    • Oferecer pré-natal adequado e com início precoce;
    • Realização de teste não-treponêmico;
    • Instituir tratamento e seguimento adequados da gestante e do parceiro;
    • Documentar sorologias na caderneta da gestante;
    • Notificação compulsória.
  • Antes da Gravidez
    • Objetivo: diagnóstico precoce da sífilis em mulheres em idade reprodutiva e em seu parceiro
    • Tratamento da sífilis de acordo com a fase da doença
      • Sífilis primária (com cancro duro, indolor e que geralmente passa despercebido na mulher):
        • penicilina G benzatina 2,4 milhões UI/IM em dose única;
      • Sífilis secundária (com lesões cutaneomucosas generalizadas e poliadenopatia) ou latente recente (< 1 ano de evolução):
        • penicilina G benzatina 4,8 milhões UI/IM em 2 doses (intervalo de uma semana entre elas);
      • Sífilis terciária (lesões cutaneomucosas e alterações neurológicas, cardiovasculares e osteoarticulares), latente tardia (com > 1 ano de evolução) ou com duração ignorada:
        • penicilina G benzatina 7,2 milhões UI/IM em 3 doses (intervalo de uma semana entre elas).
    • Orientações gerais durante o tratamento específico: a elevação de títulos justifica um novo tratamento.
  • Durante a Gravidez
    • Assistência pré-natal adequada:
      • Realização do VDRL na 1ª consulta do pré-natal (idealmente, no 1º trimestre da gestação);
      • 2º teste no início do 3º trimestre (em torno da 28ª semana);
      • Em caso de ausência de teste confirmatório (treponêmico), considerar para o diagnóstico de sífilis as gestantes com VDRL reagente, em qualquer titulação, desde que não tratadas anteriormente de forma adequada.
    • Objetivo: tratamento imediato dos casos diagnosticados em gestantes e seus parceiros
    • Gestantes alérgicas à penicilina: dessensibilização + penicilina OU eritromicina
    • Tratamento da gestante
      • Sífilis primária (com cancro duro, indolor e que geralmente passa despercebido na mulher):
        • penicilina G benzatina 2,4 milhões UI/IM em dose única + VDRL mensal;
      • Sífilis secundária (com lesões cutaneomucosas generalizadas e poliadenopatia) ou latente recente (< 1 ano de evolução):
        • penicilina G benzatina 4,8 milhões UI/IM em 2 doses (intervalo de uma semana entre elas) + VDRL mensal;
      • Sífilis terciária (lesões cutaneomucosas e alterações neurológicas, cardiovasculares e osteoarticulares), latente tardia (com > 1 ano de evolução) ou com duração ignorada:
        • penicilina G benzatina 7,2 milhões UI/IM em 3 doses (intervalo de uma semana entre elas) + VDRL mensal.
    • Tratamento adequado para sífilis materna
      • Tratamento completo, adequado ao estágio da doença, feito com penicilina;
      • Tratamento finalizado pelo menos 30 dias antes do parto;
      • Parceiro devidamente tratado.
    • Tratamento inadequado para sífilis materna
      • Uso de medicamento que não seja a penicilina;
      • Tratamento incompleto;
      • Instituição de tratamento < 30 dias antes do parto;
      • Tratamento não documentado;
      • Ausência de queda dos títulos;
      • Parceiro não tratado ou sem informação disponível.
    • Gestante com sífilis secundária: 1ª dose do tratamento deve ser no ambiente hospitalar – reação de Jarisch-Herxheimer (RJH) pode levar a morte fetal
    • Oferecer teste anti-HIV para gestante com sífilis
  • Manejo do Recém-Nascido
    • Exame do RN
      • VDRL (não utilizar sangue do cordão umbilical);
      • Radiografia de ossos longos;
      • Punção lombar;
      • Hemograma completo;
      • Outros exames laboratoriais de acordo com o quadro clínico.
    • No período neonatal
      • Nos RNs de mãe com sífilis NÃO ou inadequadamente tratada
        • Independentemente do resultado do VDRL do RN, realizar:
          • hemograma;
          • radiografia de ossos longos;
          • punção lombar.
        • A1: alterações clínicas e/ou sorológicas e/ou radiológicas e/ou hematológicas: tratar com penicilina G cristalina ou penicilina G procaína por 10 dias.
        • A2: alteração liquórica: penicilina G cristalina por 10 dias.
        • A3: se não houver alterações clínicas, radiológicas, hematológicas e/ou liquóricas e a sorologia for negativa: penicilina G benzatina por via IM – dose única + acompanhamento obrigatório
          • sendo impossível garantir o acompanhamento, o RN deverá ser tratado com penicilina G cristalina ou penicilina G procaína por 10 dias
      • Nos RNs de mães adequadamente tratadas
        • Realizar VDRL.
        • Quando reagente com titulação maior do que a materna, e/ou na presença de alterações clínicas, realizar:
          • hemograma;
          • Rx de ossos longos;
          • análise do LCR.
        • B1: alterações clínicas e/ou sorológicas e/ou radiológicas e/ou hematológicas: tratar com penicilina G cristalina ou penicilina G procaína por 10 dias
        • B2: alteração liquórica: penicilina G cristalina por 10 dias
        • C2: se for assintomático e tiver o VDRL reagente com título igual ou menor que o materno, acompanhar clinicamente.
          • Na impossibilidade do seguimento clínico, investigar e tratar com penicilina G cristalina ou penicilina G procaína por 10 dias.
        • C1: RN assintomático e VDRL não reagente: seguimento clínico-laboratorial.
          • Na impossibilidade de garantir o seguimento: penicilina G benzatina.
    • Após o Período Neonatal (> 28 dias de vida)
      • Investigação clínica e sorológica sugestivos.
      • Se confirmar: proceder o tratamento conforme preconizado, observando-se o intervalo das aplicações que, para a penicilina G cristalina, deve ser de 4 em 4 horas, e para a penicilina G procaína, de 12 em 12 horas.
    • Seguimento
      • Consultas ambulatoriais: mensais até o 6º mês de vida e bimensais do 6º ao 12º mês.
      • VDRL com 1 mês, 3, 6, 12 e 18 meses de idade.
        • Interromper o seguimento com dois exames consecutivos de VDRL negativos.
      • Realizar TPHA ou FTA-Abs para sífilis após os 18 meses de idade (confirmação do caso).
      • LCR alterado: reavaliação liquórica a cada 6 meses.
      • Manifestações clínicas: repetir sorologia mesmo que não esteja no momento previsto.
      • Acompanhamento oftalmológico, neurológico e audiológico semestral por dois anos.
      • Crianças tratadas de forma inadequada, na dose e/ou tempo do tratamento preconizado, deve-se convocar a criança para reavaliação clínico-laboratorial, e reiniciar o tratamento da criança, obedecendo aos esquemas anteriormente descritos.

Biossegurança

  • Precauções padrão de contato por até 24h após o início do tratamento

Nota Informativa: ausência global da matéria-prima da penicilina (2015)

  • Recomenda o uso exclusivo da penicilina G benzatina para gestantes com sífilis e da penicilina cristalina apenas para crianças com sífilis congênita.
  • Tratamentos alternativos:
    • Neurossífilis: ceftriaxona: 2g IV ou IM uma vez ao dia, por 10 a 14 dias;
    • Sífilis congênita, na indisponibilidade de penicilina cristalina, penicilina G benzatina e penicilina G procaína, constitui-se opção terapêutica: ceftriaxona: 25 a 50mg/kg por peso, uma vez ao dia, IV ou IM, por 10 a 14 dias.

2. TOXOPLASMOSE CONGÊNITA

3. RUBÉOLA CONGÊNITA

4. CITOMEGALOVIROSE CONGÊNITA

  • família herpes vírus
  • causa mais comum de infecção congênita
  • doença de inclusão citomegálica (congênita)
  • adultos: Sd. mononucleose-like

Fontes de transmissão

  • saliva
  • leite materno
  • secreções vaginais
  • urina
  • sêmen
  • fezes
  • sangue (> transfusão de leucócitos)

Epidemiologia

  • 90 % assintomáticos: com perda auditiva neurossensorial em 7% dos casos
  • 5% doença de inclusão citomegálica grave
  • 5% doença leve a moderada

Doença citomegálica

  • RCIU
  • prematuridade
  • hepatoesplenomegalia
  • icterícia
  • trombocitopenia
  • microcefalia
  • calcificações intracranianas (periventriculares)

Problemas neurológicos

  • surdez neurossensorial
  • coriorretinite
  • aumento das proteínas no líquor

Infecção perinatal

  • Transmissão:
    • secreções cervico-vaginais: 6 a 12%
    • leite materno: 50%
  • maioria é assintomática
    • prematuros (< 1500g) maior chance de apresentar a doença

Diagnóstico

  • cultura ou PCR: urina e saliva
  • sorologia: IgG, IgM (pouco sensível e pouco específica)

Tratamento

  • Ganciclovir
  • Foscarnet

5. HERPES SIMPLES CONGÊNITO

  • HSV1: infecta pele e mucosa acima da cintura
  • HSV2: infecção de genitália e do neonato

Transmissão

  • maioria: HSV2
  • 85%: predomina a transmissão durante o parto (perinatal)
  • 5%: transmissão intra-útero
  • 10%: pós-parto
  • infecção materna primária: Tx de transmissão de 33-50%
  • doença materna recorrente: Tx de transmissão de 1-3%

Manifestações clínicas

  • infecção de pele, olho e boca: 5-6 dias após o parto
    • lesão característica: vesículas e úlceras de pele (30 a 43% dos RN)
    • atenção para: pústulas-vesículas e ceratoconjuntivite
    • 70% das infecções localizadas não tratadas evoluem para doença do SNC ou disseminada
  • infecção do SNC: 8-12 dias após o parto
    • letargia
    • tônus muscular reduzido
    • convulsões
  • infecção disseminada: 5-6 dias após o parto

Diagnóstico

  • quadro clínico
  • isolamento do vírus
  • sorologia específica
  • demonstração em material de biópsia ou LCR
  • Meningoencefalite
    • PCR do líquor
    • líquor: hemácias, pleocitose (linfócitos), aumento da proteína e glicose normal
    • EEG e RNM: lesão temporal

Tratamento

  • Aciclovir (14-21 dias)

Prevenção

  • manejo obstétrico da gestante com HSV genital: lesões primárias ou recorrentes no início do trabalho de parto: cesárea

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